Não havia prancha, muito menos praia, mas os três jovens, entre eles, dois menores, se equilibravam como podiam para “surfar” em cima do teto de um ônibus. O ato de vandalismo, praticado na última sexta-feira (25), na avenida Edmeia Matos Lazzarotti, e flagrado por moradores, é comum de ser visto por quem utiliza diariamente o transporte público em Betim. Para eles, pode até parecer uma aventura, mas, além de colocar a vida dos próprios adolescentes em perigo, pode ocasionar vários acidentes e comprometer a segurança dos passageiros dos coletivos.
Mas o que leva uma pessoa, sobretudo, um menor, a correr o risco de sofrer um acidente, ficar paraplégico ou morrer surfando em cima de um coletivo? Apesar de não surfar mais, o padeiro H.L.M., 33, diz que foi adepto da prática por três anos, quando era adolescente. Segundo ele, a sensação é de muita adrenalina. “O vento batendo no rosto, a velocidade, tudo isso é muito bom. Não tinha um jogo ou baile funk que a galera ia que não aproveitava para surfar. Mas, antes, os jovens faziam isso por pura curtição mesmo. A gente não quebrava nem estragava nada nos ônibus. Mas, agora, os jovens que surfam fazem vandalismo e quebradeira. Isso eu não concordo”.
De acordo com H.L.M., a prática do surfe somente acabou depois que ele foi agredido com uma pedrada na cabeça. “Levei cinco pontos na cabeça. Por isso, decidi parar. Mas foi uma época boa. A gente zoava demais”, ressaltou ele. “Na minha turma, ninguém nunca foi preso. Mas sei de casos de pessoas que foram pegas”, contou.
No caso dos menores de 17 anos e de Franklin Mendes da Silva Pires, 18, flagrados na sexta (25) surfando em um ônibus da linha 450, a ousadia terminou com apreensão do trio pela Polícia Militar. “Nós avistamos os três surfando por toda a extensão da avenida Edmeia, uma das principais vias da cidade. Na abordagem, encontramos no celular de um dos detidos registros de outras ações que eles faziam, inclusive, um vídeo em que eles diziam ser os donos do pedaço”, contou o tenente Thiago Resende, do Gepmor do Tático Móvel da Polícia Militar.
A reportagem tentou falar com os jovens, mas somente um foi encontrado, e não quis dar entrevista. Contudo, familiares dele, que pediram para não serem identificados, disseram que ele teria sido desafiado. “Os colegas dele disseram que ele não tinha coragem. Daí, ele decidiu provar o contrário”.
A Santa Edwiges, concessionária responsável pelo transporte convencional de Betim, informou que esse tipo de problema é recorrente. “Nas regiões onde há maior incidência, enviamos um comunicado para PM para ela tentar inibir a ação de vandalismo. Além de surfar, esse jovens danificam veículo. Por isso, a empresa faz reuniões periódicas com os motoristas e os orienta a não reagir e, quando o fato ocorrer, seguir o trajeto normalmente”, declarou.
Identidade cultural
Segundo a psicóloga Izilda Costa, o envolvimento de alguns jovens em atividades arriscadas e até mesmo violentas é um acontecimento inevitável na passagem da infância para o mundo adulto e faz parte do processo de elaboração da identidade. “Quando chega à puberdade, o adolescente não se contenta mais com o lugar que ocupa na família e vai em busca de um lugar de destaque entre seus pares. E, para se afirmar e se sentir-se aceito e seguro, acaba incorporando regras grupais como símbolos de identificação coletiva, como comportamentos arriscados e violentos”, explicou.
Motoristas sofrem com a insegurança
Quem trabalha e quem utiliza diariamente o transporte público da cidade também sofre com a insegurança. De acordo com dados da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), somente no ano passado, foram registrados 308 casos de furtos e de roubos consumados contra motorista, cobradores e passageiros, ou seja, quase um crime por dia. Em 2013, foram contabilizadas 201 ocorrências desse tipo e, somente de janeiro a agosto deste ano, já são 196 registros de roubo e furto registrados pela Seds.
Uma das vítimas dessa violência é o cobrador F.S.F. Na semana passada, ele foi agredido com um golpe de facão na cabeça por um homem que entrou dentro do ônibus em que ele trabalhava, na região do PTB, para roubá-lo. Conforme relato da vítima, que levou vários pontos, o autor do crime estaria sob o efeito de álcool ou de entorpecentes. “Há dias em que saímos de casa e não sabemos se vamos voltar. Essa violência nos ônibus é geral e atinge todas as cidades. É preciso um policiamento mais ostensivo”, reivindicou um motorista, que pediu anonimato.