Com menos passageiros, sistema de transporte público deve ser alterado

A crise financeira que se abate sobre todo o país atingiu também o sistema de transporte público em diversas cidades de porte médio e grande. Em Betim, não é diferente. O número de passageiros que utiliza o serviço teve uma queda brusca entre os meses de janeiro e outubro deste ano, se comparado com o mesmo período de 2014.

Segundo informações da Transbetim, autarquia que gerencia o trânsito e o transporte público da cidade, repassadas a reportagem por especialistas contratados pela empresa Santa Edwiges e por associações de transporte suplementar, a redução chegou a 12,39%, o que significa uma queda de quase 3.000 passageiros por mês e um déficit de cerca de R$ 8 milhões por ano no sistema que atende à população local.

Em Belo Horizonte, conforme o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Belo Horizonte (Setra-BH), a redução foi de apenas 1,03% no mesmo período. Os principais motivos para essa diminuição em Betim são o aumento da taxa de desemprego, a desaceleração do setor de construção civil e a estagnação do comércio.

Para tentar evitar mais prejuízos ao sistema e diminuir o impacto sobre o usuário através de mais aumentos nas tarifas, um estudo, elaborado por uma consultoria especializada em engenharia de transporte, propõe um redimensionamento do sistema. A nova proposta estabelece a divisão do serviço que é prestado hoje em três áreas de atuação: uma em que poderão trafegar exclusivamente os ônibus da Santa Edwiges, outra em que vão transitar somente os micro-ônibus suplementares, e a terceira, como área livre, que contará com o atendimento de suplementares e da Santa Edwiges.

A proposta de mudança, apesar de enfrentar resistência por parte da população, é defendida por estudiosos. De acordo com André Luiz de Oliveira Barra, diretor da consultoria Tecnotran, dividir o transporte em áreas é uma realidade em vários municípios do país, como Juiz de Fora, Belo Horizonte, Salvador e Rio Janeiro, que, além de reduzir o custo do transporte público, ajuda a melhorar a qualidade do serviço.

“A lógica da concorrência predatória não se aplica ao transporte público. Quando duas empresas disputam os passageiros em uma mesma linha, há aumento do número de quilômetros rodados por veículo, sem, contudo, haver crescimento do número de usuários utilizando esses veículos. Isso aumenta a despesa de quem presta o serviço”, explicou o consultor.

Betim tem hoje o Índice de Passageiros por Quilômetro (IPK) estabelecido em 1,2. Essa métrica é utilizada para definir a tarifa técnica e se baseia no custo do transporte por quilômetro (o valor da passagem é obtido pela divisão do IPK pelo custo do quilômetro rodado). Por isso, explica Barra, quanto menor for o valor do índice, mais alto será o custo do sistema. “Cada vez que esse índice cai, é o usuário que acaba sofrendo com o aumento do valor da passagem ou é o município que, para não ter que reajustar o valor da tarifa, tem que subsidiar a despesa excedente, deixando de investir em áreas como saúde e educação”, explicou.

Para Barra, com as alterações propostas, o município, os usuários e os prestadores de serviço serão beneficiados. “Além de diminuir congestionamento e a poluição, a divisão de áreas acaba com as linhas superpostas, ou seja, aquelas em que há vários carros rodando em uma mesma linha, criando assim linhas que atendam diretamente os usuários, sem que esse tenha que ficar dando voltas para chegar ao seu destino”, explicou.

O presidente do conselho administrativo da Santa Edwiges, Joel Jorge, concorda. Segundo ele, o usuário não pode mais ser onerado pela ineficiência do serviço. “Trabalhamos com uma malha que tem mais de 14 anos. É preciso modernizar. É claro que sempre haverá reajuste da tarifa por causa da inflação, que são justificadas pelos aumentos de insumos, como diesel e a mão de obra. O que não pode haver é o reajuste por ineficiência”, disse.

Contraponto

O presidente da Cooperativa de Transportes Alternativos de Fretamento e Turismo de Betim (Coopertraf), Valdiney Rosa, critica a proposta de mudança. “Da forma como o estudo foi elaborado, irá prejudicar muito o usuário. Não existirá mais o chamado ‘transporte alternativo’, pois não dará mais a liberdade de escolha para que o usuário opte entre os veículos da Santa Edwiges e das cooperativas”, disse.

Entretanto, outra liderança dos transportadores autônomos, o presidente da Cooperativa dos Permissionários do Transporte Alternativo de Betim (Cooperbet), George Susuki, afirmou que o projeto vai “racionalizar o sistema de transporte e reduzir o custo-benefício do serviço”. “A ideia é acabar com sobreposição de linhas, o que gera uma ‘briga’ pelo passageiro, reduzir viagens longas de veículos, diminuir a alta velocidade e melhorar o atendimento, sobretudo, para idosos e pessoas deficientes”.

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