Descontentes com os baixos salários, as péssimas condições de trabalho, a sobrecarga de trabalho e com a crescente violência nas unidades de saúde de Betim, muitos médicos que atuavam no município estão pedindo exoneração do cargo e abandonando seus postos de trabalho. O problema, confirmado pelo próprio Sindicato dos Médicos de Minas Gerais (Sindmed/MG) nesta semana, se arrasta por anos e, nos últimos meses, está se tornando cada vez mais crítico, prejudicando, assim, quem mais precisa do atendimento médico: a população carente do município.
Na Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro Alvorada, os moradores da região há meses sentem os reflexos dessa situação. Segundo eles, há três meses, o posto de saúde não conta com a assistência de um clínico e de um ginecologista. “Não tem médico aqui no posto do Alvorada faz muito tempo. Eu precisei trazer minha filha porque ela está sentindo uma dor forte no braço, depois de ter tomado uma vacina, mas não tinha ninguém para me atender nem mesmo para me dar uma orientação. É uma falta de respeito com a população que não tem para onde correr”, desabafou a dona de casa Ivani Castro.
Outra moradora, que procurou atendimento na UBS, na última quinta-feira (9), Elza Aves de Jesus disse estar apreensiva, porque não sabia se conseguiria se consultar com um médico na unidade. “Hoje (quinta) eu só vim marcar um exame, mas não sei se vou conseguir. Provavelmente, não. Estamos abandonados e à mercê de um governo que não olha por nós. Insatisfação e revolta: esses são nossos sentimentos”, disparou.
Já o motorista Sidnei Gonçalves reclamou da demora para marcar consultas no posto de saúde. “Para marcar exame é demorado. Para consultar então, nem se fala. Tem meses que não vejo um médico aqui no posto. E vocês podem observar que está vazio. Mais grave que não ter médico, é não ter orientação certa aqui no posto. Ninguém sabe explicar aonde estão os médicos que deveriam nos atender. Dá dó da população e raiva do governo”, afirmou.
De acordo com um dos diretores do Sinmed, César Santos, atualmente, os médicos de Betim recebem 37% a menos que os médicos que atuam nos demais municípios da região metropolitana. Ele afirmou ainda que a progressiva evasão dos profissionais da cidade está ocorrendo há alguns meses. “Insatisfeitos, esses profissionais acabam pedindo exoneração. Com isso, a carga de trabalho dos profissionais que permanecem na rede aumenta, o tempo de espera dos pacientes cresce, gerando tensão entre os usuários, que passam a agir de forma violenta, agredindo os médicos. É um efeito cascata que está se tornando uma bola de neve”, afirmou.
Posicionamento
Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde informou que está concluindo um processo para a contratação de um novo médico (clínico geral) para a unidade do Alvorada. “A previsão é que o profissional comece a atuar na UBS ainda no mês de julho”. Conforme a secretaria, “um médico ginecologista também vai começar a atuar na unidade ainda neste mês”, declarou.
Agentes querem direitos de efetivo
Após entrarem em greve, em 2014, para reivindicar o reajuste do piso salarial da categoria, de R$ 910 para R$ 1.014, os agentes comunitários de saúde (ACSs) e agentes de combate às endemias (ACEs) querem agora que o governo municipal conceda aos trabalhadores os mesmos direitos trabalhistas dos servidores efetivos.
Segundo o presidente do Sindicato dos Servidores Públicos de Betim (Sind-Serb), Geraldo Teixeira, no último dia 22 de junho, o governo federal alterou um dispositivo do decreto número 8.474/15 – que regulamenta a atividade da categoria –, para conceder vínculo direto e regularmente formalizado aos trabalhadores. “Pelo decreto, os agentes têm que ter os mesmos direitos trabalhistas dos efetivos”.
Já conforme um agente, que terá o nome preservado, hoje a categoria está atendendo uma área maior e trabalhando em locais bem mais distantes de suas casas. “Estamos atuando dentro dos postos, porque as equipes estão incompletas. Isso prejudica a qualidade do nosso trabalho”.
A Secretaria de Saúde informou já está discutindo com a categoria o decreto e disse que é permitido ao ACSs desenvolver outras atividades nas unidades, listadas pela Portaria 2488, de outubro de 2011.