A população de Betim reclama que os serviços essenciais da cidade estão abandonados. Apesar de ter uma das maiores arrecadações do Estado – com uma receita de R$ 1,8 bilhão prevista para este ano –, a cidade parece viver dias difíceis. Segundo os moradores, as ruas estão sem limpeza, faltam vacinas e remédios nos postos de saúde, e a violência só aumenta.
Como se não bastasse tudo isso, o município ainda pode enfrentar uma greve na educação já no início do ano letivo, previsto para começar no dia 26 de janeiro. Os professores ameaçam paralisar as escolas da rede municipal, já que, de acordo com o Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação (Sind-UTE) subsede Betim, o governo municipal não cumpriu diversos compromissos acertados com a categoria. Uma assembleia foi marcada para o próximo dia 27 para discutir o indicativo de greve.
“A prefeitura, há 12 meses, não cumpre o pagamento do piso nacional, conforme determina a legislação, para os professores da educação infantil. Enquanto o piso nacional é de R$ 2.135, os professores de Betim recebem R$ 1.697,37. Além da educação infantil, os educadores com licenciatura (curso superior) também não recebem o piso. Betim tem a segunda maior arrecadação do Estado, mas paga um dos piores salários da região metropolitana. Diante disso, vamos discutir a proposta de greve”, afirmou o coordenador geral do Sind-UTE Betim, Luiz Fernando Souza.
Problemas. Para alguns moradores, a situação de abandono da cidade se agravou com o afastamento do prefeito Carlaile Pedrosa (PSDB), que ficou 27 dias sem despachar da prefeitura devido a um Acidente Vascular Cerebral (AVC) sofrido em 21 de dezembro de 2015. O prefeito retornou nesta segunda ao gabinete, mas não deu declarações à imprensa sobre o afastamento.
“A situação da cidade já estava péssima e, com o afastamento do prefeito, parece ter piorado. No posto de saúde que atende os bairros Jardim Petrópolis e São João, a situação é absurda. Os exames estão suspensos, faltam várias vacinas, como a de hepatites A e B e antirrábica, além de vários medicamentos essenciais. O nosso posto de saúde já foi assaltado várias vezes, e, até hoje, a prefeitura não fez nada”, afirmou o morador José Irani.
A falta de limpeza na cidade também tem causado revolta. Para o agente de segurança Jonatas dos Santos, 27, a capina deveria ser feita regularmente, principalmente em avenidas como a Edmeia Matos Lazzarotti. “Mas não é isso que acontece. O mato está tão grande na avenida que já está dificultando o acesso aos equipamentos da academia popular do bairro Bueno Franco”, reclamou.
Outro lado
Educação. Em relação à greve no setor da educação, a Secretaria Municipal de Educação de Betim informou que não recebeu nenhum comunicado oficial em relação às possíveis paralisações.
Respostas
Limpeza. A prefeitura informou que a limpeza da cidade está sendo realizada dentro de um cronograma de ações que contemplam serviços de capina, roçada e retirada de lixo.
Segurança. Segundo o Executivo municipal, as medidas imediatas de segurança não dependem da prefeitura, mas sim do governo do Estado. A Secretaria de Estado de Defesa Social informou que só comentará os dados oficiais de criminalidade de 2015 após estes serem divulgados, no próximo mês.
Saúde. A Secretaria Municipal de Saúde disse que as coletas de material para a realização de exames nesta segunda e terça foram adiadas por questões de logística com a empresa fornecedora. A prefeitura ressaltou que todos os exames serão realizados.
Violência
Índices. Os índices de violência também assustam a população. A taxa de homicídios em Betim é uma das mais altas do país. De acordo com a 8ª Delegacia Especializada de Homicídios da cidade, só em 2015, 234 pessoas foram assassinadas no município.
2015. No ano passado foram 61,8 assassinatos para cada grupo de 100 mil habitantes, o que significa que a cidade é seis vezes mais violenta que o limite estabelecido pela Organização Mundial de Saúde, que define o limite de 10 homicídios a cada 100 mil.
Protesto por atraso no salário
Na sua volta à prefeitura, nesta segunda, Carlaile Pedrosa (PSDB) enfrentou protestos de ex-funcionários responsáveis pela limpeza das escolas municipais. Dezenas deles, demitidos da Qualitécnica, empresa terceirizada da Secretaria Municipal de Educação e que presta serviço a escolas e creches municipais, foram até a porta do gabinete do prefeito para cobrar o pagamento referente a dezembro, o vale-alimentação e o acerto de 160 trabalhadores, que deveria ter sido feito no quinto dia útil deste mês.
Segundo Maria Aparecida de Lourdes, ex-funcionárias da Qualitécnica, a dívida da prefeitura com a empresa chega a R$ 1,8 milhão. “Fomos lá para conversar com o prefeito, mas quem nos atendeu foi a secretária dele. Elas nos disseram que a prefeitura não tem dinheiro para pagar os funcionários, e, hoje (nesta segunda), termina o nosso aviso. Isso é um absurdo. Trabalhamos muito e ainda fomos mandados embora injustamente. Agora, não pagam os nossos direitos? Tenho dois filhos, e eles ficam chorando porque não têm nada para comer em casa”, desabafou.
O atraso no pagamento foi confirmado pelo Sindicato dos Empregados em Empresas de Asseio, Conservação e Limpeza Urbana da região metropolitana de Belo Horizonte (SindAsseio).
A reportagem entrou em contanto com a Qualitécnica, mas o responsável pela empresa não retornou as ligações.