Mal os trabalhos da equipe de transição do prefeito eleito, Vittorio Medioli (PHS), se iniciaram, há pouco mais de um mês, e os problemas encontrados na saúde em Betim demonstram que a situação a ser enfrentada pelo futuro gestor será pior do que a imaginada. Na última semana, integrantes da comissão percorreram os corredores do Hospital Público Regional, e flagram um cenário que beira ao caos completo.
Segundo a equipe de transição, na farmácia, por exemplo, não existe controle da quantidade de remédios existentes nem dos que são usados pelos pacientes. Também é comum os remédios não servirem mais para o uso, por serem estocados de forma inapropriada. “O estoque onde eles são guardados não possui controle de temperatura, por isso, é comum medicamentos não servirem para uso. As geladeiras não resfriam direito, o que também gera danos aos medicamentos”, contaram à equipe de transição funcionários do setor, que não terão o nome revelado.
Além disso, o maquinário que deveria servir para separar os remédios não pode ser usado por não seguir os padrões da Agência Nacional de Vigilância Sanitário (Anvisa). Também, por falta de embalagens adequadas, muitos itens são colocados em sacos plásticos semelhantes aos de sacolões.
No arquivo, muitos prontuários foram encontrados pela equipe de transição sujos de sangue, com barro e mofados. O setor não possui ventilação e as parede estão no reboco.
Já na cozinha do hospital, conforme denunciado pela reportagem no início deste ano, continua colocando em risco usuários e funcionários do setor, com equipamentos industriais enferrujados e mal conservados; revestimento das paredes em mau estado e instalações elétricas precárias. “O refeitório está em total desacordo com as normas da vigilância sanitária. Tal negligência com as leis sanitárias faz com que a cozinha sofra infestações corriqueiras de animais peçonhentos como ratos e baratas, que saem das valas que ficam no chão da cozinha”, denunciou um funcionário do setor.
No pronto-socorro, o estado de completo caos não é diferente. O setor de politraumatizados, por exemplo, funciona como um Centro de Tratamento Intensivo (CTI), diante da falta de leitos para encaminhar os usuários em estado grave. “Eles ficam esperando por mais de dez dias no politraumatizados. E quando não tem vaga lá, recebem atendimento precário no corredor, e esperam encaminhamento para o CTI lá mesmo. Nessas condições, o risco de infecções e de óbito é iminente”, alertou um servidor do setor.
Já a enfermaria, que a princípio deveria funcionar só como porta de entrada para os primeiros socorros, é usada como leito de tratamento permanente dos usuários. “O paciente tinha que receber os primeiros atendimentos e ser encaminhado para outro setor prontamente. Mas por falta de leitos, são tratados nas enfermarias, o que aumenta, em muito, a chance da proliferação de infecções hospitalares”, denunciaram os trabalhadores, que também reclamaram da superlotação do setor.
Superbactéria
O risco de a unidade hospitalar enfrentar outro surto superbactéria KPC, como ocorreu durante o governo da ex-prefeita Maria do Carmo Lara (PT), em 2012, também é altíssimo. Isso porque a sala de isolamento não faz seu papel efetivo de isolar os pacientes com doenças infecciosas dos demais, além de não ter ventilação adequada.
Para o vice-prefeito e integrante da equipe de transição, Vinícius Resende (SD), é de suma importância que a população fique a par dessa realidade. “Vamos receber um município sucateado e endividado, e arrumar todas as demandas vai tomar tempo. Por isso, peço que a população tenha paciência. Vamos trabalhar com empenho para que Betim volte aos trilhos do desenvolvimento e para que a população volte a ser tratada com dignidade, mas os resultados serão gradativos”, disse.
Nega problema
Por e-mail, a assessoria de imprensa do Hospital Regional informa apenas que, assim como os demais órgãos da administração municipal, a unidade hospitalar recebeu a visita da comissão de transição. “Conforme dados já fornecidos à referida comissão, o HPRB ressalta que as informações não procedem e que todos os esclarecimentos pertinentes já foram apresentados por meio de relatórios oficiais”, declarou a assessoria.