O processo de desindustrialização e a grave crise econômica que afetam o país causaram mais vítimas nesta semana. A Indústria Cachoeira LTDA (ICL), responsável pela DTA, grife que conquistou o mercado nacional e passou a ser reconhecida até fora do país, encerrou suas atividades em Betim depois de 24 anos de funcionamento, causando a demissão de 280 funcionários diretos.
No mercado desde 1991, a empresa viveu seu auge no fim da década e chegou a ter 450 funcionários diretos e 1.500 indiretos. A empresa se destacou no mercado, principalmente, pela modelagem de suas calças jeans, utilizando modelos famosos em suas campanhas de lançamento.
Nos últimos cinco anos, porém, com o encolhimento do mercado, o número de funcionários foi reduzido a quase metade do que tinha. A competição com a China e o alto custo industrial no Brasil forçaram o empresário Ermínio Vidal, principal executivo da empresa, a pedir a recuperação judicial.
Segundo Vidal, a crise teve início em 2008. “A empresa funcionava com base em um processo verticalizado, ou seja, cuidava da produção das peças desde o início até o fim. O sistema era apropriado para os anos de implantação. Tínhamos desde os processos de corte, costura, lavanderia, tinturaria, inspeção e acabamento final do produto. Com o passar do tempo, o custo dessa forma de produzir, considerando que as indústrias de confecção produzem somente oito meses por ano, ficou insuportável. Para se ter uma ideia, nosso custo com a folha de pagamento, em agosto deste ano, representou 58% do valor da venda”, explicou o empresário.
Na última quinta-feira (17), trabalhadores da ICL se reuniram na porta da empresa para cobrar explicações sobre o fechamento da indústria. Eles chegaram a dependurar seus uniformes no portão da sede da indústria e marcaram uma nova manifestação para o início da semana que vem.
De acordo com um desses funcionários, após receberem o comunicado de que deveriam cumprir férias coletivas por sete dias, os trabalhadores voltaram para a empresa, porém, encontraram os portões fechados. “Ao chegarmos à fábrica, encontramos os portões lacrados. Ninguém da empresa estava aqui para nos receber. Todos estão muito chateados. Estamos sem rumo”, disse Idalina Alves, funcionária da empresa há cinco anos.
Para Luiz de Assis Miranda, que trabalhou por 19 anos na ICL, a notícia pegou todos de surpresa. “O sentimento é de impotência, misturado com muita tristeza. Uma parte da minha vida eu passei aqui dentro, e agora tenho medo de não receber por isso”, explicou.
Segundo Ermínio Vidal, desde o ano de 2010, quando a empresa pediu concordata, tentava-se de um processo de recuperação fiscal. Mas, como não foi possível sair da crise, a única solução foi o fechamento da fábrica. “Os salários de agosto já foram pagos e estamos em dia com o recolhimento do FGTS. Diante da impossibilidade de manutenção desta situação e sem condições financeiras para arcar com as despesas de indenização, decidimos pela venda de parte de nosso ativo para acerto das rescisões judiciais dos trabalhadores, o que deve acontecer em breve”, afirmou.
Acerto
Além de vender a marca DTA, o empresário Ermínio Vidal informou que irá disponibilizar os bens da empresa para que o acerto com os funcionários seja realizado o mais rapidamente possível.
“Estamos vendendo parte do ativo para fazer o acerto das rescisões dos trabalhadores, dentro do menor tempo possível. Temos 65.000 metros de terreno e 10.000 metros de área construída no bairro Cachoeira, além de matérias-primas, veículos, maquinário e um estoque de aproximadamente 100 mil peças de produto acabado”.
O empresário ressaltou que o patrimônio é mais que suficiente para o cumprimento das obrigações trabalhistas. “Procuraremos realizar o valor destes bens o mais rapidamente possível, apesar do momento adverso de nossa economia”.