Governo suspende exames laboratoriais nas 34 UBSs

Os milhares de pacientes que vão todos os dias até as 34 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) de Betim para fazer exames laboratoriais estão desassistidos. Há 14 dias, a prefeitura suspendeu o contrato com o laboratório Labclim, que realizava 100% da coleta de exames de rotina da rede pública, o que dá uma média de 40 mil procedimentos por mês.

A interrupção, uma determinação do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), ocorreu dois anos após o Ministério Público mover uma ação contra a prefeitura e o laboratório, alegando irregularidades no contrato, já que o mesmo “afrontou a Constituição da República” e “burlou as regras do concurso público”, pois “vários funcionários ficaram ociosos e tiveram que ser remanejados para outros setores, gerando prejuízo ao erário”.

Agora, após a suspensão, usuários e servidores da saúde criticam a “omissão” do governo. Para eles, como a prefeitura estava ciente do risco de haver a interrupção do contrato com a empresa, deveria ter tomado providências para que a população não ficasse desassistida. “Sempre vou ao posto para ajudar a marcar exames para os idosos da minha comunidade. Na semana passada, o médico me disse que o serviço estava interrompido, que não tinha previsão de voltar, e ainda orientou que os pacientes façam exames particulares. Isso é um absurdo. Essas pessoas não têm dinheiro nem para comer direito. Se o contrato tinha problemas, a prefeitura tinha que ter tomado providências antes. O que não é certo deixar o povo a míngua”, criticou o líder comunitário do bairro Laranjeiras, Daniel de Oliveira.

Cadeirante e diagnosticado com doença renal crônica, o aposentado Antônio José de Melo, 82, precisa fazer exames de rotina periodicamente. Segundo ele, a coleta acontecia no hospital, mas, para a sua surpresa, desde agosto deste ano, funcionários da unidade hospitalar disseram que o pedido teria que ser feito no posto de saúde da região onde moro. “A partir daí virou um jogo de empurra. Já se passaram dois meses e não fiz nenhum exame. Não posso pagar do meu bolso. Meu filho olhou para mim e disse que para ser feito em um laboratório particular daria em torno de R$ 1.000. Ganho um salário mínimo, mal pago meus remédios e a comida aqui de casa”, disse.

Outra paciente que também não conseguiu fazer a coleta de rotina no posto de saúde do bairro em que mora, no Laranjeiras, é Jandira Gomes de Oliveira, 70. No caso dela, que teve gastrite crônica e que precisa tomar medicamentos controlados, os exames periódicos essenciais para acompanhar seu quadro de saúde. “Tenho glicose e colesterol altos. Preciso tomar remédios controlados por causa disso. Quando soube na unidade que não fariam a coleta do meu sangue, fiquei desanimada. As coisas já estão tão difíceis, só temos amolação”.

Já uma servidora da UBSs Homero Gil, que pediu para não ser identificada, contou que, na semana passada, funcionários da Labclim estiveram na unidade para recolher todo o material utilizado na coleta de exames. “Levaram luvas, coletores, seringas. Disseram que o contrato tinha acabado. A gerência nos comunicou que não havia previsão de voltar o serviço. Aqui na unidade distribuímos 15 senhas para realizar por dia. Ficamos preocupados, as pessoas não entendem que a culta não é nossa, ficam bravas e descontam na gente”, disse.

Sem estrutura

Antes de terceirizar a execução de exames laboratoriais para a Labclim, em 2014, o serviço era feito no Laboratório Central do Hospital Regional. Agora, com a suspensão do contrato, a prefeitura teria determinado que os exames voltassem para a unidade. Porém, o setor não teria mais a estrutura de antes para absorver toda a demanda da rede.

“Estão voltando para nós o serviço a toque de caixa. Fomos avisados que o contrato foi cancelado no dia 15 e que assumiríamos os exames da cidade toda a partir do dia 1º de novembro. Acontece que, nesse período, o Laboratório Central estava responsavel apenas pelo atendimento de urgência do hospital. Ele sofreu várias modificações no espaço físico. Onde funcionava o laboratório de urgência, hoje funciona o banco de sangue do hospital. Já equipamentos como microscópios e centrífugas foram aos poucos cedidos para as outras unidades. Agora, não sei como vamos assumir essa enorme demanda de exames. É impossível reorganizar essa estrutura em 15 dias e prestar um serviço de qualidade”, disse um servidor do hospital, que pediu anonimato.

Posicionamento

A Secretaria de Saúde confirmou a suspensão e disse que reorganizou o serviço para garantir assistência à população.

Adicionar comentário

Este espaço é fornecido para que os internautas possam expressar suas opiniões sobre o artigo postado. Para outros comentários clique aqui.


Código de segurança
Atualizar

transparente