
Uma mãe e um pai de santo vêm sendo alvos de intolerância religiosa na cidade. Há cerca de um ano e meio, quando abriram um templo de umbanda no Chácara, Sarah Campos, de 35 anos, e Daniel Campos, de 40, começaram a sofrer ataques anônimos tanto no terreiro quanto no endereço residencial deles. No último dia 12, ocorreu o episódio que os zeladores consideram o mais grave até agora: por volta das 3h45, um homem arranhou o carro de Sarah, que estava estacionado na rua, e ainda deixou um alguidar (espécie de prato de barro utilizado em rituais de religiões de matriz africana) com um galo morto e os olhos furados com alfinetes. A ação foi registrada por câmeras de segurança do imóvel do casal e também de vizinhos. Assustados e com receio de novos atos, na semana passada, a mãe e o pai de santo procuraram uma delegacia da Polícia Civil para registrar um boletim de ocorrência e acionaram o Conselho Municipal da Promoção da Igualdade Racial de Betim (Compir).
“Temos um ótimo relacionamento com a comunidade e com pessoas de outras casas [de umbanda]. Fazemos um trabalho social entregando comida à população em situação de rua. Honestamente, não sabemos de onde partiu essa situação de ódio e intolerância contra nós”, assegura Sarah.
Segundo a religiosa, em outras ocasiões, já deixaram um padê (tipo de farofa fria e úmida) e uma vela acesa em cima do veículo dela, quebraram um alguidar, hackearam a conta do templo no Instagram e até atearam fogo ao terreno em que ela e Daniel vivem. Além disso, já invadiram a casa espiritual, arrombaram o assentamento de Exus, furtaram uma adaga e uma bainha de couro. “As pessoas sabem o quanto a minha religião é sagrada pra mim. Estou me sentindo ridicularizada”, desabafa Sarah. “Essa crueldade contra animais não é umbanda nem candomblé, não representa nada de matriz africana. Isso é um desrespeito à nossa ancestralidade. É difícil entender o que está acontecendo, tamanha a falta de respeito à fé e à crença do outro”, completa a zeladora do terreiro.
ALIADOS
De acordo com a conselheira de Matrizes Afro do Compir, Patrízia Martins, Sarah e Daniel procuraram o auxílio da instituição para contarem com mais um reforço nesse processo de enfrentamento da intolerância religiosa, motivada, muitas vezes, pelo desconhecimento e pelo preconceito. “O conselho é fiscalizador. Recolhemos a denúncia para tomarmos uma iniciativa e darmos um suporte à casa de umbanda”, explica Patrízia.
Em nota, a Polícia Civil informou que instaurou um inquérito e realizou oitivas para apurar o caso. “A investigação tramita a cargo da 5ª Delegacia de Polícia Civil de Betim”, conclui o texto.
PROJETO DE LEI QUER PUNIR SÁTIRAS RELIGIOSAS NO MUNICÍPIO
A Câmara aprovou por unanimidade nesta semana um projeto de lei que proíbe sátiras religiosas ou qualquer manifestação com o intuito de ridicularizar ou menosprezar dogmas ou crenças religiosas em atos e protestos sociais e culturais no município.
O PL 029/2022, de autoria do vereador Rony Martins (Avante), veda ainda a liberação de verbas públicas municipais para a contratação ou o financiamento de eventos, desfiles, espetáculos, passeatas e marchas que supostamente pratiquem ou já tenham praticado o vilipêndio (ação de escarnecer alguém publicamente por motivo de crença ou função religiosa) ou a intolerância religiosa. “O projeto visa preservar todas as denominações religiosas”, argumentou Rony.
Caso as regras sejam descumpridas, conforme prevê o PL, será imposto o pagamento de multa de até R$ 3.500 ao infrator, que receberá ainda restrições pra realizar eventos públicos no município por, no mínimo, dois meses. Agora, o projeto seguirá para redação final.