Morador amarra carro em árvore com medo de roubos

Amedrontado e cansado da epidemia de violência que vem atingindo Betim nos últimos anos, um morador da cidade tomou uma atitude extrema: desde o início deste mês, ele passou a amarrar seu veículo a uma árvore, através de correntes, e a trancá-lo com um cadeado para tentar conter a ação dos bandidos. Segundo o oficial de manutenção Júlio César de Oliveira Borém, 46, a medida foi tomada depois que ele foi novamente vítima da criminalidade ao ter seu automóvel furtado em frente à empresa em que trabalha, no bairro Brasileira.

“No fim do expediente, entrei na firma para bater cartão e, quando voltei na rua para pegar meu carro, ele não estava mais. Fiz a ocorrência, mas não adiantou. Só consegui achar o carro cinco horas depois, porque meu irmão, coincidentemente, o viu parado na avenida Amazonas, no centro. Como não tenho seguro, resolvi amarrá-lo para tentar conter a ousadia dos bandidos. Mas essa não foi a primeira vez que fui vítima de um crime assim. Já fui assaltado várias vezes quando trabalhava como cobrador e tive a aparelhagem de som toda roubada. Não aguento mais essa violência. Já não saio de casa à noite por medo, então, decidi: no fim do ano vou me mudar para o interior”, afirmou a vítima de roubo e furto.

A atitude, considerada no mínimo desesperada do oficial de manutenção, é bastante compreensível e apenas confirma uma estatística divulgada pela Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) na última terça-feira (21), que aponta que os roubos consumados em Betim representam 91% do total de crimes violentos cometidos nos seis primeiros meses do ano no município. Pelo levantamento, de janeiro a junho deste ano, foram contabilizados 2.888 roubos consumados, contra 2.236 registros feitos no mesmo período, em 2014. Isso representa uma média de 16 ocorrências por dia. Só em junho deste ano, foram 494 casos de roubos.

Arrastão

Essa pandemia de roubos, ao que tudo indica, não vai parar de crescer em Betim. No mesmo dia em que a estatística da Seds foi divulgada, outras quatro vítimas, todas mulheres, conheceram bem a sensação de ter uma arma apontada para a cabeça. Na ocasião, dois homens realizaram um arrastão na região onde elas moram.

No primeiro crime, eles roubaram a bolsa de uma delas, no bairro Niterói. Minutos depois, abordaram mãe e filha, de 63 e 47 anos, respectivamente, na porta da casa da mãe, no bairro Espírito Santo. Nesse caso, eles ameaçaram as vítimas de morte, trancaram uma delas na cozinha da residência e levaram joias das vítimas. “Vivemos momentos de terror. Só imaginava que o pior ia acontecer”, disse a filha.

O fim da onda de assaltos aconteceu somente na rua Paraná, quando, ao tentar levar o carro de outra vítima, de 45 anos, a dupla foi surpreendida por um policial civil e acabou morta em uma troca de tiros.

Faltam efetivos

Para o coordenador do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp), da UFMG, Cláudio Beato, em Betim, o grande entrave para coibir a ação dos bandidos esbarra na falta de efetivos. “Isso é uma questão histórica no município, tanto para as polícias Militar quanto Civil”, disse. Ainda conforme ele, é preciso existir mais articulação entre as policias e o Ministério Público. “No caso da cidade, que tem uma Secretaria de Segurança Pública, é necessário também que haja mais investimento na Guarda Municipal”, ponderou o especialista.

Respostas

Para o comandante do 33º Batalhão da PM de Betim, o tenente-coronel Edmilson Sabino, o problema não está na polícia que, segundo ele, continua a fazer o trabalho ostensivo e preventivo. “A grande maioria dos presos é reincidente. O número de roubos em Betim aumentou, mas o de prisão e apreensões também. Enquanto esses criminosos não permanecerem presos, fica difícil equacionar a incidência de criminalidade”.

A Secretaria Municipal de Segurança Pública informou que para tentar coibir o número de roubos e furtos criou “a Patrulha Específica da Guarda Municipal para atuar na região Central” e declarou ainda que foi iniciada, em julho, a “Operação Adensamento”, em parceria com as polícias Militar e Civil, Receita Estadual e Seds.

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