Número de leitos de UTI em Betim está abaixo da média nacional

O número de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) ou CTI existente hoje no Hospital Público Regional de Betim é insuficiente para assistir de forma adequada os mais de 690 mil moradores de Betim e dos 12 municípios pactuados que dependem da rede pública de saúde municipal. Um estudo publicado no último dia 16 maio pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), que mapeou a distribuição desses leitos entre Estados e capitais em todo o Brasil, demonstra isso.

De acordo com o levantamento, a portaria nº 1.101/2002 do Ministério da Saúde preconiza que a oferta necessária de leitos de UTI deve ficar entre 4% e 10% do total de leitos hospitalares, o que corresponde a um índice de um a três leitos de UTI para cada 10 mil habitantes.

O Hospital Regional de Betim, com seus 54 leitos de UTI, sendo 24 de tratamento intensivo para recém-nascidos, 20 para adultos e 10 para crianças, conforme informou a Secretaria Municipal de Saúde, possui um índice de 0,7 leitos para cada grupo de 10 mil moradores, aquém da média nacional do SUS, que é de 0,9 leitos para cada grupo de 10 mil habitantes.

Pelo estudo, a unidade hospitalar de Betim precisaria ter, no mínimo, 69 leitos para garantir o bom atendimento a toda a população da região. Capitais como Vitória, no Espírito Santo, como 355.875 habitantes, e Florianópolis, em Santa Catarina, com 469.690 moradores, possuem índices superiores – 3,0 e 1,8, respectivamente – aos de Betim, com seus 417.307 moradores, segundo estimativa populacional de 2015, feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Sofrimento

Os dados são preocupantes e refletem o sofrimento crescente de pacientes e de seus familiares, que ficam aflitos à espera de uma vaga em um leito de UTI para serem atendidos de forma apropriada.
É o caso de Jéssica Angelina, 21. Há dias, ela aguarda a transferência da filha de apenas 2 anos da Unidade de Atendimento Imediato (UAI) Sete de Setembro para um leito de tratamento intensivo do SUS. “Minha filha está com diagnóstico de asma, bronquite e pneumonia e precisa da ajuda de aparelhos para respirar. Precisamos transferí-la para um hospital para ela ser tratada de forma adequada, mas, até hoje, segundo a gerência da UAI Sete, não há vaga disponível em hospitais da rede. Eles disseram que tentaram até em Curvelo e Ibirité”, contou a mãe.

Quem também aguarda com angústia por uma vaga em um leito de tratamento do SUS é a família de João Batista Filho, 64, que, após sofrer um infarto no último sábado (28), foi internado na UAI Guanabara. “A médica disse que ele está em estado grave e que precisava de tratamento adequado. No domingo (29), uma senhora que precisava ir para uma UTI também foi internada na UAI. Infelizmente, ela morreu antes que fosse disponibilizada uma vaga. Temo que o mesmo aconteça com meu pai”, lamentou Jânio Rodrigues, 36, filho de João.

Na outra ponta, são os trabalhadores da saúde que também sofrem com o problema, ao se depararem diariamente com corredores sempre lotados, repletos de pacientes sendo atendidos de forma improvisada. “O Hospital Regional já não dava conta da demanda de Betim e das 12 cidades pactuadas. Mas depois que a prefeitura mandou cortar as horas extras e reduziu o quadro de funcionários, a situação piorou. Quando um médico falta, por exemplo, e há um leito vago, a direção do hospital orienta que os funcionários fechem o leito, que serve de depósito de equipamentos. Fora isso, pacientes ficam dois, três dias aguardando nos corredores dos blocos cirúrgicos a espera de uma vaga na UTI. Para agravar a situação, a Comissão de Controle de Infecção Hospitalar, responsável por liberar os leitos, está demorando a fazer seu trabalho, que está piorando a demora para abrir as vagas nos leitos”, denunciou uma técnica em enfermagem do Regional, que terá o nome preservado.

No estudo feito pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), Mauro Ribeiro, primeiro vice-presidente do conselho, afirmou que o lado mais desumano e perverso desses dados revelados no estudo está no fato de que pacientes entubados em ventiladores improvisados morrem de causas evitáveis. “Por mais que os médicos e toda a equipe multiprofissional se dediquem a salvá-los, esses pacientes não estão onde deveriam estar. A gama instrumental de uma UTI, aliada à capacidade da equipe que atua nela, permite que muitas pessoas sejam salvas. Então necessitamos urgentemente de políticas públicas que facilitem o acesso dos pacientes às unidades de terapia intensiva”, defendeu Mauro Ribeiro.

“Todos os dias nós médicos testemunhamos a morte de pessoas que poderiam ser salvas pela disponibilidade de um leito de UTI. Para os governos, quando um paciente morre, trata-se apenas de mais um número. Para a família, no entanto, é uma tragédia”, completou.

Sem resposta

Questionada sobre o estudo divulgado pelo CFM, a assessoria da Secretaria Municipal de Saúde não se pronunciou.

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