Relatório da Secretaria Adjunta de Ouvidoria repassado nesta semana à reportagem pela equipe de transição do prefeito eleito Vittorio Medioli (PHS) retrata a triste realidade de caos que vive a saúde hoje no município. De acordo com o levantamento, o setor é o líder em reclamações na Prefeitura de Betim, com 9.666 queixas contabilizadas de janeiro de 2013 a agosto de 2016 – 71,5% do total de 13.525 manifestações protocoladas pela população nas Ouvidorias Geral e do SUS, no mesmo período. Já as outras secretarias e órgãos da atual administração absorveram 28,5% da demanda, ou seja, 3.859 reclamações. “A Ouvidoria do SUS recebeu, em média, o dobro de volume das manifestações recebidas pela Ouvidoria Geral”, informou o relatório da secretaria.
Pelo balanço, a dificuldade de acesso dos usuários à consultas médicas é a campeã de insatisfação dos betinenses, com 1.664 queixas protocoladas no período (12,41%). Em segundo lugar está o mau atendimento, que foi alvo de 1.525 reclamações (11,38%), e o terceiro no ranking com mais críticas foi a falta de medicamentos nas unidades de saúde, que registrou 899 reclamações, ou seja, 6,71% do total.
Para o procurador e um dos integrantes da equipe de transição de Vittorio Medioli, Bruno Cypriano, apesar de em todas as ouvidorias do país a maioria das demandas ser na área da saúde, os dados demonstram que é preciso mudar a forma de gestão desta área em Betim. “O atual governo apenas manteve a forma antiga de administrar, como fizeram os gestores anteriores. O reflexo disso é essa má avaliação. Faltou colocar em prática novas alternativas de administração, que concentrassem as ações na atenção primária e na prevenção à saúde. Agora, diante do déficit orçamentário que o futuro governo vai enfrentar, com um orçamento previsto para a saúde de R$ 268,7 milhões, o que não cobre nem a folha de pagamento da pasta, que está orçada em R$ 272 milhões, será preciso fazer mais com menos”, ponderou.
Na ruas, pacientes que dependem do sistema de saúde pública em Betim relatam o sofrimento enfrentado. É o caso de Adelson Alves Caldeira, 42, que desde 2013 aguarda para fazer uma cirurgia no joelho esquerdo, depois de sofrer um acidente de trabalho. “Um bloco de cimento caiu em cima do meu joelho, estourando os nervos dele. Fui para o Regional e, depois, me mandaram para o Divino Braga, mas até hoje não marcaram minha cirurgia. Sinto dores fortes e gasto muito com medicação. Além disso, como ando de muleta e não posso forçar a perna esquerda, comecei a desenvolver problema no joelho da perna direita”, contou.
Queixas por região
Das dez regionais da prefeitura, as que tiveram mais cidadãos que procuraram as Ouvidorias Geral e do SUS para reclamar sobre os serviços municipais foram a Alterosas, com 17,66% das queixas, seguida da região Central, que absorveu 12,89% do total de reclamações.
Já a regional Petrovale foi a que menos se manifestou, com apenas 1,91% da demanda. “Esses dados corroboram a nossa hipótese de que regiões com maior índice de pobreza possam se manifestar menos”, esclareceu o relatório.
Ainda conforme o levantamento, as mulheres foram responsáveis por 64% das reclamações protocoladas, totalizando 8.711 queixas. “O predomínio do sexo feminino se repete em todos os anos da gestão, evidenciando mais no Sistema SUS do que na Ouvidoria Geral”, explicou o relatório. Porém, em 2016, na Ouvidoria Geral, os homens estiveram mais presentes nas reclamações. “A maioria motivados por demandas referentes à arrecadação e tributos na Superintendência de Receitas”, completou.
Sobre o caso de Adelson, a Secretaria de Saúde disse apenas há um pedido de agendamento de consulta para ele com um ortopedista, na Diretoria de Regulação, que é feito conforme a classificação de risco.
Sem feedback
Outro grave problema apontado pelo relatório é a falta de resolução dos problemas apresentados pela população, sobretudo, nas queixas relacionadas à saúde. Para se ter uma ideia, em 2015, 18,94% das reclamações protocoladas na Ouvidoria SUS não tiveram resposta da secretaria.
Neste ano, a falta de feedback por parte da pasta já chega a 17,05%. “A falta de respostas motiva conflito entre a população e o governo, dificultando a relação de confiança”, disse o relatório.
A Secretaria de Saúde ressaltou que todas as manifestações recebidas são atendidas e encaminhadas para o setor responsável para possível resolução e resposta ao manifestante. A grande demanda por atendimento na Ouvidoria SUS, em relação a outras secretarias, se justifica pela especificidade e tamanho da rede de saúde de Betim e também pela sua complexidade.