Ameaças de tiroteio em escolas e em delegacia, rebelião com fuga de presos no Ceresp Betim, assassinato de um policial e de duas professoras, toque de recolher em retaliação à morte de uma pessoa no bairro Parque das Indústrias. Essas foram apenas algumas das inúmeras informações que viralizaram pela internet na sexta-feira (8), gerando pânico e aumentando a sensação de insegurança entre os moradores de Betim. Na ocasião, parte do comércio, unidades de saúde e escolas de bairros como Sítio Poções, Itacolomi, Bom Retiro, Vila das Flores, Homero Gil, Bueno Franco e Niterói fecharam, e o policiamento teve que ser reforçado.
Na Escola Estadual Juscelino Kubitschek de Oliveira, no bairro Bueno Franco, mais de mil alunos, além de funcionários, foram dispensados após motoqueiros aparecem na frente da escola e ameaçarem os funcionários. “Disseram para não sermos heróis. Que era toque de recolher e que era guerra armada em Betim. Ficamos apavorados e decidimos dispensar os alunos. Em 20 anos que trabalho aqui, nunca vi uma coisa como essa. Betim virou uma terra de ninguém, um faroeste”, desabafou um funcionário.
À noite, alunos e funcionários da Escola Municipal Edmeia Braga, no bairro Niterói, ao lado do Bueno Franco, também foram liberados.
Em meio ao clima de pânico e insegurança, moradores dos bairros Vila das Flores e Sítio Poções, que pediram para não serem identificados, disseram a reportagem que o motivo do suposto toque de recolher seria um assassinato que ocorreu na quinta-feira (7) no bairro Parque das Indústrias. “Alguns homens passaram aqui em motos falando que era para baixar as portas no início da tarde e não funcionar nada”, disse um comerciante. Já segundo um outro morador do bairro, o medo era grande. “Alguns estabelecimentos e o posto de saúde fecharam. A gente está até com receio de sair na rua”, completou.
Desdobramentos
Uma semana após o ocorrido, tanto a Polícia Civil quanto a Militar informaram que estão investigando as denúncias, mas alegam que 90% das informações que circularam foram boatos. “Grande parte das notícias era mentira. Meia dúzia de pessoas soltaram os boatos na internet, potencializando o medo na população. É a famosa teoria do medo”, disse Álvaro Huertas, responsável pela 2ª Delegacia Regional da Polícia Civil.
O comandante do 33º Batalhão da Polícia Militar, Luciano Vivas, admitiu que o fato tomou proporções inimagináveis. Contudo, conforme ele, não houve motivo aparente para que acontecesse o suposto toque de recolher. “Os bairros afetados não estão em guerra de tráfico nem ocorreu a morte de um traficante conhecido. Para garantir a segurança e a tranquilidade, aumentamos o efetivo e várias abordagens foram feitas, inclusive a prisão dos suspeitos de envolvimento do assassinato no Parque das Indústrias, que pode ter ligação com esse fechamento do comércio”, disse.
Os suspeitos de terem assassinado Geraldo Luiz Pereira Junior, 19, foram presos no sábado (9), no bairro Jardim das Alterosas. Com um deles foi achada uma pistola e 12 munições.
Cheque informações
O suposto toque de recolher ocorrido na sexta (8) em Betim chama a atenção para os riscos que a circulação de informações sem credibilidade e equivocadas podem gerar.
Segundo o especialista em segurança pública Jorge Tassi, o que move o interessa da sociedade em relação a segurança é a sensação de se estar segura. “É isso que faz com que a pessoa viva normalmente. A sensação de vulnerabilidade e insegurança ocorre quando há a veiculação equivocada de questões vinculadas à violência. É preciso checar com fontes seguras e de credibilidade as informações para compreender o que de fato está acontecendo. Caso contrário, ocorrerá como aconteceu em Betim, em que houve a falsa sensação de que o crime organizado estava dominando”.
O comandante da PM, Luciano Vivas, concorda. Segundo ele, quando a pessoa tiver dúvida sobre a notícias nas redes sociais, é conveniente que ligar para a Polícia Militar ou Civil. “Assim a pessoa vai saber a realidade dos fatos, evitando difundir boatos que possam vir a tirar a paz dos demais cidadãos”, finalizou.